Mudanças climáticas desafiam sericicultura, mas Paraná mantém liderança nacional na produção de seda 24/08/2026 - 16:22

Estado responde por cerca de 85% da seda produzida no Brasil e aposta em tecnologia, irrigação e climatização para preservar uma atividade estratégica da agricultura familiar

O Paraná segue como líder nacional na produção de seda, mesmo diante dos desafios provocados pelas mudanças climáticas, pela redução da mão de obra e pelos impactos da deriva de agrotóxicos sobre as plantações de amoreira. O Estado responde por aproximadamente 85% da produção brasileira de seda e é o maior produtor da América Latina de casulos do bicho-da-seda, atividade desenvolvida majoritariamente por agricultores familiares. 

A sericicultura paranaense também se destaca pela qualidade da matéria-prima. O fio produzido no Estado é exportado para mercados como França, China, Índia, Itália e Japão, abastecendo a indústria da moda e algumas das principais grifes internacionais.

Em 2025, o Valor Bruto da Produção (VBP) da sericicultura no Paraná chegou a R$ 34,57 milhões, segundo dados do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Dos 399 municípios paranaenses, 137 participam efetivamente da atividade. O cenário, porém, já foi mais expressivo. Segundo o assessor estadual do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), responsável pela sericicultura, Oswaldo da Silva Pádua, o Estado chegou a ter cerca de 5 mil sericicultores. Atualmente, são aproximadamente 1,2 mil. “Havia cerca de 5 mil sericicultores e hoje apenas 1,2 mil trabalham no setor no Estado.

Isso acontece porque as amoreiras sofrem com a deriva de agrotóxicos, muita pulverização sem conscientização e a aviação agrícola, além das oscilações do clima, que geram frustração na safra para os agricultores”, explica Pádua.

CLIMA AUMENTA PREOCUPAÇÃO COM PRODUÇÃO - A mudança no comportamento do clima é uma das principais preocupações para a próxima safra. As altas temperaturas interferem diretamente no desenvolvimento das amoreiras, que fornecem o único alimento das lagartas do bicho-da-seda, e também exigem maior controle das condições ambientais nos barracões de criação. “Uma das principais preocupações deste ano é com o clima, que tende a esquentar devido ao El Niño. Novas tecnologias precisam ser aplicadas para que as amoreiras possam se desenvolver com qualidade, até porque este é o único meio de alimentação das lagartas”, destaca Oswaldo.

Para enfrentar o problema, associações de sericicultores, pesquisadores, universidades, indústria, agentes financeiros, órgãos públicos e entidades do setor estão trabalhando na implantação de novas tecnologias e capacitações. No Noroeste do Paraná, dez propriedades foram escolhidas como Unidades de Referência para a implantação de um conjunto de soluções, sendo três em Nova Esperança, duas em Cruzeiro do Sul, uma em Atalaia, uma em Alto Paraná, uma em Astorga, uma em Ivaté e uma em Araruna. Entre as ações estão a instalação de sistemas de irrigação em um hectare de amoreira, estações de monitoramento climático e climatização dos barracões utilizados para a criação das lagartas.

A iniciativa também deverá avançar para as regiões Centro-Sul e Norte Pioneiro, com a previsão de implantação de outras dez Unidades de Referência, acompanhando o crescimento da atividade nessas áreas. Segundo o técnico do IDR-Paraná Eduardo Venicio Libanori, o controle da temperatura nos ambientes de criação é fundamental para manter a produtividade. “A climatização dos ambientes na produção das lagartas é extremamente importante para a continuidade da atividade. A temperatura precisa ficar em torno de 22°C a 26°C, e a chegada de temperaturas mais altas preocupa”, afirma.

ATIVIDADE GERA RENDA PARA AGRICULTURA FAMILIAR - Além da importância econômica, a sericicultura é considerada uma atividade de baixo impacto ambiental e com forte participação da agricultura familiar. Uma caixa utilizada na criação pode comportar cerca de 40 mil lagartas e resultar em aproximadamente 70 a 80 quilos de casulos. Considerando valores de venda entre R$ 40 e R$ 42 por quilo, a produção de uma caixa pode representar uma receita bruta de aproximadamente R$ 2,8 mil a R$ 3,3 mil, dependendo da produtividade e do preço obtido.

A atividade, entretanto, perdeu grande parte dos produtores ao longo dos anos. Estima-se que cerca de 85% das famílias que trabalhavam com a sericicultura tenham deixado o setor. A recuperação da cadeia produtiva está entre os objetivos das ações atualmente desenvolvidas no Paraná. “A presença da força da extensão rural é essencial para que o projeto se desenvolva de forma integrada, com inovação e trabalho de sustentabilidade”, ressalta Oswaldo.
O trabalho reúne diferentes segmentos da cadeia produtiva, incluindo pesquisa pública e privada, extensão rural, universidades, indústria de seda, agentes financeiros, associações de sericicultores e a Associação Brasileira de Fiações de Seda (Abraseda).

PARANÁ CONCENTRA PRODUÇÃO E TRADIÇÃO - O Noroeste paranaense tem papel histórico na produção de seda e chegou a responder por cerca de 60% da produção estadual. O município de Nova Esperança, inclusive, é reconhecido por lei como a Capital Nacional da Seda. Em 2025, porém, o município de Diamante do Sul assumiu a liderança estadual na produção, seguido por Nova Esperança e Cândido de Abreu.

A força do Paraná não está apenas no campo. O Estado também possui uma cadeia industrial estruturada para o beneficiamento do produto. Depois de produzidos, os casulos são encaminhados às unidades industriais, onde passam por seleção, secagem e processamento até a obtenção do fio de seda.

No processo de classificação, os casulos são separados em categorias como Premium Extra, Premium Bom, Premium e Kaiten. Na etapa de secagem, equipamentos controlam a retirada de umidade para preservar a qualidade do fio. Posteriormente, os casulos são avaliados com auxílio de painéis de luz para identificar possíveis anomalias internas. Em seguida, são cozidos em temperaturas entre 60°C e 70°C, processo que facilita a liberação do fio e contribui para sua firmeza.

DO CAMPO À INDUSTRIA INTERNACIONAL - A produção do bicho-da-seda, ou Bombyx Mori, ocorre em ciclos de aproximadamente 28 dias. As lagartas se alimentam exclusivamente de folhas frescas de amoreira e passam por diferentes fases de crescimento até estarem prontas para formar os casulos. Na etapa final, as lagartas consomem grandes quantidades de folhas, exigindo fornecimento constante de alimento, inclusive durante a noite. Depois de atingir o desenvolvimento necessário, sobem em estruturas conhecidas como “bosques” ou montadeiras e iniciam a produção do casulo.

Cada casulo pode fornecer até cerca de mil metros de fio contínuo de seda. Para produzir aproximadamente um quilo de seda bruta, são necessários cerca de cinco quilos de casulos. O aproveitamento também se estende aos subprodutos. A anafaia, formada pelas sobras de seda dos casulos, pode ser utilizada na fabricação de tecidos, cortinas e almofadas. Até mesmo as crisálidas podem ser destinadas à alimentação animal ou ao consumo humano em mercados específicos.

PLANO PARA OS PRÓXIMOS DEZ ANOS - Diante dos desafios atuais, o Paraná trabalha na construção de estratégias para garantir a continuidade e a sustentabilidade da cadeia produtiva. 

“O IDR-Paraná faz da sericicultura um de seus projetos estratégicos para aumentar a renda dos agricultores familiares, por meio do aumento da produção, da produtividade e da atuação na sustentabilidade ambiental. Pensando no desenvolvimento da atividade para os próximos anos e na viabilidade da cadeia produtiva, a equipe da Câmara Técnica da Seda estruturou um plano de desenvolvimento e sustentabilidade da sericicultura para os próximos dez anos”, explica Marcelo Garrido, chefe do Deral.

A expectativa é que a combinação entre assistência técnica, pesquisa, inovação, monitoramento climático, irrigação e climatização permita ao produtor enfrentar as mudanças nas condições ambientais, recuperar parte das famílias que abandonaram a atividade e manter o Paraná na liderança da produção nacional de seda.

SEDA PARANAENSE NAS GRIFES INTERNACIONAIS  - A seda produzida no Paraná abastece marcas de luxo como a francesa Hermès, que a utiliza em lenços e coleções de alta costura, e a Chanel, em peças sofisticadas de vestuário. Desde 2006, 100% da seda usada pela Hermès no mundo é paranaense.

Londrina, no norte do estado, abriga a única fábrica de fio de seda em escala industrial do Ocidente: a Fiação de Seda Bratac, primeira empresa brasileira a obter certificação orgânica têxtil. Em 2014, a empresa produziu 432,5 toneladas de fio de seda; das 413 toneladas comercializadas, 54,7% foram exportadas para a Europa e 45,2% para a Ásia.

UMA TRADIÇÃO MILENAR  - Originário da China, o bicho-da-seda foi criado pelo homem há mais de cinco mil anos e deu nome à Rota da Seda, caminho que por milênios promoveu o intercâmbio entre Oriente e Ocidente. No Brasil, a atividade chegou pelo Rio de Janeiro em 1848, e em 1922 foi fundada em Campinas a Indústria de Seda Nacional S.A. — marco que consolidou a sericicultura como atividade relevante para a agroindústria nacional, hoje concentrada no norte do Paraná, na região batizada de Vale da Seda, e no interior de São Paulo.

SERICULTURA EM NÚMEROS 
- 85%: participação aproximada do Paraná na produção nacional de seda.

- R$ 34,57 milhões: VBP da sericicultura paranaense em 2025.

- 137: municípios paranaenses que participam efetivamente da atividade.

- 1,2 mil: número aproximado de sericicultores atualmente no Estado.

- 5 mil: número aproximado de produtores que o Paraná já chegou a ter.

- 40 mil: quantidade aproximada de lagartas em uma caixa de criação.

- 70 a 80 kg: produção estimada de casulos por caixa.

- 28 dias: duração aproximada de um ciclo de produção.

- 22°C a 26°C: faixa de temperatura considerada adequada para a criação das lagartas.
5 kg: quantidade aproximada de casulos necessária para produzir 1 kg de seda bruta.