Plantio direto: tecnologia que nasceu no Paraná ajuda a produzir mais e preservar o meio ambiente 23/10/2026 - 13:22

IDR-Paraná tem participação decisiva na construção das bases científicas e adoção da tecnologia no campo 

No dia 23 de outubro o segmento agropecuário celebra o Dia Nacional do Plantio Direto, uma das mais importantes transformações da agricultura brasileira. A iniciativa teve início no Norte do Paraná, há mais de meio século, quando agricultores e pesquisadores passaram a buscar alternativas para produzir sem comprometer a integridade do solo. Desde então, a essa abordagem revolucionou a produção de grãos, ajudou a conter a erosão e se tornou referência mundial em agricultura sustentável. 

Mais do que uma técnica de cultivo, o plantio direto representa uma mudança na forma de manejar os recursos naturais. Ao dispensar o preparo convencional do terreno, manter a superfície continuamente protegida e promover a diversificação das culturas, o sistema contribui para reduzir as perdas de solo e água, melhorar suas condições físicas, químicas e biológicas e favorecer a sustentabilidade da agropecuária.

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Seus benefícios ultrapassam os limites das propriedades rurais. A redução da erosão diminui o transporte de sedimentos para rios e reservatórios, contribuindo para a preservação dos recursos hídricos. A manutenção da matéria orgânica e a melhoria da estrutura do solo também favorecem a infiltração e o armazenamento de água, condições especialmente importantes diante da maior frequência de eventos climáticos extremos.

Para os agricultores, o sistema pode representar economia de combustível, redução das operações mecanizadas, maior eficiência no uso dos recursos produtivos e melhores condições para manter a produtividade ao longo do tempo.

PIONEIRISMO — A história do plantio direto no Brasil está diretamente ligada ao Paraná. Em 1972, o agricultor Herbert Bartz realizou, em Rolândia, a primeira semeadura comercial de soja sem preparo convencional do solo de que se tem notícia na América Latina. Preocupado com os prejuízos causados pela erosão, ele buscou informações sobre experiências desenvolvidas no Brasil e no exterior e decidiu experimentar uma alternativa ao uso intensivo de arados e grades.

A iniciativa despertou o interesse de outros produtores. Nos anos seguintes, a técnica chegou a propriedades de Campo Mourão e Mauá da Serra e, posteriormente, aos Campos Gerais, onde agricultores como Franke Dijkstra e Manoel Henrique Pereira, conhecido como Nonô, tiveram participação decisiva em sua expansão.

O ano de 1972 também marcou a criação do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), uma das instituições que deram origem ao atual Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná). A partir de 1976, seus pesquisadores intensificaram os estudos para adaptar a nova abordagem às condições de solo e clima das diferentes regiões produtoras, contribuindo para transformar uma prática de semeadura em um sistema integrado de produção agrícola.

Foi nesse processo que se consolidaram os três princípios fundamentais do Sistema Plantio Direto: mínimo revolvimento do solo, manutenção de cobertura permanente com palha ou plantas vivas e rotação de culturas. A integração dessas práticas permitiu ampliar os benefícios agronômicos, econômicos e ambientais da tecnologia.

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CIÊNCIA — O trabalho desenvolvido pelo Iapar envolveu diferentes áreas do conhecimento, como manejo e fertilidade do solo, mecanização agrícola, fitotecnia, plantas de cobertura e controle de pragas e doenças. Os estudos contribuíram para aperfeiçoar o sistema e oferecer aos agricultores recomendações adequadas às condições da agricultura tropical e subtropical.

Para a, essa trajetória demonstra a importância da pesquisa pública na construção de soluções capazes de conciliar produtividade e conservação ambiental.

“O Sistema Plantio Direto é um exemplo de como a ciência pode transformar a agricultura e produzir benefícios duradouros para toda a sociedade. É um legado que nos orgulha e reforça nosso compromisso de continuar desenvolvendo soluções para uma agropecuária cada vez mais sustentável”, afirma a diretora de pesquisa e inovação do IDR-Paraná, Vania Moda Cirino.

A contribuição da instituição permanece atual. Em 2025, pesquisadores ligados ao IDR-Paraná participaram da publicação de um artigo científico na revista internacional Advances in Agronomy, que recupera a trajetória histórica do Sistema Plantio Direto e analisa sua importância para os desafios contemporâneos da agricultura.

O trabalho destaca o protagonismo brasileiro, particularmente do Paraná, na construção de um modelo de produção que se tornou referência internacional. Participaram do estudo Tiago Santos Telles, Rafael Fuentes Llanillo e Ruy Casão Junior, vinculados ao IDR-Paraná, além de Marie Luise Carolina Bartz, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e da Universidade de Coimbra, em Portugal, e Ricardo Ralisch, da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

O reconhecimento internacional também se expressa na incorporação dos três princípios do Sistema Plantio Direto à abordagem de agricultura de conservação promovida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

PUBLICAÇÃO – Um marco importante dessa trajetória ocorreu em 1981, quando a editora do antes Iapar, lançou o livro “Plantio Direto no Estado do Paraná”, primeira publicação brasileira a reunir, de forma sistematizada, conceitos e recomendações técnicas sobre o sistema.

Ao organizar esse conhecimento em uma publicação de referência, o Instituto contribuiu para facilitar o acesso de pesquisadores, extensionistas e agricultores às informações necessárias à implantação e ao aperfeiçoamento do sistema. A iniciativa ajudou a estabelecer uma base técnica comum para sua difusão e consolidou o papel da instituição na produção e disseminação de conhecimento científico aplicado à agricultura.

EXTENSÃO RURAL – A consolidação do Sistema Plantio Direto também é obra de um amplo trabalho de assistência técnica e extensão rural. Ao lado dos pesquisadores e dos agricultores pioneiros, os extensionistas do antigo Instituto Emater-Paraná, hoje integrado ao IDR-Paraná, desempenharam papel fundamental na divulgação das recomendações técnicas e no acompanhamento da adoção da tecnologia nas propriedades.

Por meio de dias de campo, unidades demonstrativas, capacitações e orientação técnica, o conhecimento produzido pela pesquisa chegou aos agricultores, permitindo que o sistema fosse aperfeiçoado e adaptado às diferentes realidades produtivas.

Esse trabalho permanece necessário. Embora o plantio direto esteja amplamente disseminado na agricultura brasileira, nem sempre sua adoção contempla todos os princípios que caracterizam o sistema. Em muitas propriedades, a ausência de uma rotação adequada de culturas ou a insuficiência de cobertura vegetal pode comprometer os benefícios esperados.

Para o diretor de Extensão Rural do IDR-Paraná, Paulo Eduardo Sipoli Pereira, a atuação integrada da pesquisa e da extensão é fundamental para que os benefícios do sistema sejam efetivamente alcançados. “O plantio direto é uma conquista construída com a participação dos agricultores, da pesquisa e da extensão rural. Conservar o solo é preservar o principal patrimônio da agricultura e assegurar condições de produção para as próximas gerações”, ele aponta.

SUSTENTABILIDADE – O crescimento da área cultivada sob plantio direto mostra a dimensão da transformação iniciada no Paraná. De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 33 milhões de hectares eram cultivados com a tecnologia no Brasil, o equivalente a 62% da área destinada à produção de grãos. No mundo, em 2020, a técnica já era utilizada em mais de 205 milhões de hectares, com presença importante em países como Argentina, Estados Unidos, Canadá, Austrália e China.

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“Em 2026, a área sob plantio direto no Brasil situa-se em torno de 45 milhões milhões de hectares, o que equivale a 65% da área total destinada a lavouras temporárias no país”, contabiliza Rafael Fuentes Llanillo, pesquisador sênior do IDR-Paraná e atual coordenador de relações internacionais da FEBRAPDP (Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto). 

Llanillo acrescenta que, na América do Sul, são 86 milhões de hectares e, no mundo todo, aproximadamente 300 milhões de hectares cultivados sob o sistema plantio direto (internacionalmente conhecido como “agricultura conservacionista)”.

A ampliação das áreas cultivadas, entretanto, não elimina os desafios. O aperfeiçoamento dos sistemas de rotação, a manutenção da cobertura vegetal, a prevenção da compactação e o controle da erosão continuam exigindo atenção de agricultores, pesquisadores e extensionistas. Em áreas sujeitas a chuvas intensas, práticas complementares, como o terraceamento e o cultivo em nível, também são fundamentais para a conservação do solo e da água.
Outro aspecto relevante é o papel do Sistema Plantio Direto diante das mudanças climáticas. Solos bem manejados, protegidos e com maior teor de matéria orgânica apresentam melhores condições de infiltração e retenção de água, o que pode contribuir para reduzir a vulnerabilidade das lavouras aos períodos de estiagem. A redução das operações mecanizadas também representa uma oportunidade de diminuir o consumo de combustíveis fósseis, apontam os especialistas